Márcio Luís da Gama Cavalheiro

Sociologia da religião

          Com o passar da história, os costumes mais conservadores da religiosidade secular foi evoluindo para uma sociedade moderna sem credo e ateu. Devido a este processo de evolução histórica, a Europa foi tomada pelo conflito religioso que, devido ao “monopólio” da fé cristã instituído até então, foi tomado por uma revolução de abandono de crenças e do fim da pesada influência religiosa no dia-a-dia da vida e do poder sobre a sociedade e a população. Como consequência, podemos destacar características que surgiram após esses acontecimentos como “flexibilização” das regras religiosas das denominações seculares, surgimento de “novas correntes e denominações” cristãs mais adaptadas conforme a evolução dos paradigmas, da crença individual e a inserção de outras correntes ideológicas como por exemplo o islamismo. Com mais opções de “religião e denominações” além dos seculares, as pessoas tiveram mais opções de escolha, que culmina na legitimação da mobilidade religiosa, com validade temporária e suscetível a mudanças conforme o ambiente líquido na qual a pessoa está inserida no contexto da sociedade.

       O Brasil também não fugiu a essas regras. Essas mudanças foram acompanhadas pela transformação de uma pais predominantemente rural para urbano. Com isso houve um intenso fluxo migratório interno no Brasil, além de novos imigrantes que foram incorporados. Adicionando a esse movimento de transformação no pais, cresceram novos grupos denominacionais, e a necessidade da pessoa se adequar a essa nova situação levam as mudanças, resultando na mobilidade religiosa na qual é o objeto de estudo deste artigo.

       Baseado nos seus valores pessoais de religião e fé, das redes e relações sociais, do seu projeto migratório individual e de trabalho, o Centro Scabriniano de Estudos Migratórios realizou uma pesquisa junto aos migrantes urbanos em quatro cidades do Brasil – Aracajú, Caxias do Sul, Distrito Federal e Manaus, da qual o autor Roberto Marinucci identificou e classificou as respostas em seis dimensões gerais que levam as pessoas a trocar a sua ideologia religiosa, conforme discutiremos abaixo.

1- Dimensão emergencial: mudança religiosa por superação da crise.

       A pesquisa verificou que uma parcela grande dos entrevistados mudaram de denominação religiosa devido a algum problema grave enfrentado em algum momento da vida, como por exemplo traição, perda de ente querido, doença enfrentada, problema com drogas e bebidas, conflito familiar, etc. Em momentos de dificuldades, para a superação da crise, as pessoas se apoiam principalmente nos familiares e amigos, onde neste caso as pessoas está mais aberto e pré-disposto a ajuda e das novas sugestões e crenças. É neste momento aonde Deus usa-se de seu poder e recursos – leia-se as religiões e suas denominações – como uma das saídas para ajudar este ser na fé e superação do problema enfrentado. Por isso que, teoricamente, nas situações de crise, é a janela mais propícia para eventuais mudanças de ideologia ou denominação religiosa, apesar de não ser o único motivo devido a vulnerabilidade e contexto apresentado.

2- Dimensão relacional: mudança religiosa por busca de inserção a novos grupos sociais.

       O ser humano é um ser social e com o tempo, há uma necessidade ávida da pessoa “pertencer” ou estar inserido no grupo mais confortável a ele, tanto na convivência, nas suas convicções ou nos seus costumes. Com isso, os convites recebidos de familiares e dos laços de amizade influi grandemente na recepção e conversão à novas denominações religiosas. São as relações interpessoais que agem durante a vinculação de uma pessoa à uma vivencia social em grupo e na sua adaptação à essa nova realidade dos seus laços afetivos e cognitivo. Além disso, com as correntes migratórias, a pessoa é inserida dentro de uma nova localidade e em um novo quadro, onde há necessidade de se refazer novos laços sociais nesta nova situação muitas vezes imposta pela necessidade, fazendo com que as pessoas busquem e se “enturmem” em novos grupos. Neste caso, podemos salientar uma característica muito comum e presente neste momento de mudança, que é o abrandamento dos seus conceitos e esfriamento dos seus vínculos tradicionais, permitindo que seja mais fácil a aproximação e mais livre para aceitar as novidades propostos neste novo local de imigração, por influência das novas relações interpessoais adquiridas.

3- Dimensão doutrinal: mudança religiosa por divergência ideológica e doutrinal.

       Com a evolução intelectual, as pessoas estão levantando muitos questionamentos e, com isso, fazendo as migrações religiosas para aprofundar os conhecimentos em relação as questões religiosas, causando a ruptura com as doutrinas e/ou ideologias até então na qual estava inserido. Uma das causas é a disponibilidade de informação da sociedade moderna, pois a facilidade de acesso a conteúdo de outras denominações e chegar a uma outra conclusão sobre o cristianismo faz com que aprofundem ideias da sua fé, criticando a ideologia tradicionalista e imigrando para outra mais progressista no seu ponto de vista. Além disso, tem os casos de doutrinas que são rígidos demais para a atualidade, como a questão dos divorciados para os católicos, fazendo com que a pessoa migre para outra denominação que aceite a sua situação atual.

4- A dimensão da alteridade: mudança religiosa por divergência com as lideranças.

        Muitas vezes a pessoa tem divergência em relação a questão pastoral e espiritual, mas não é um desacordo grave de cunho ético ou doutrinal, portanto, ele procura outra denominação para frequentar que, muitas vezes, é muito similar em relação ao anterior com algumas ressalvas, que são argumentos subjetivos nas considerações do ponto de vista do indivíduo. Portanto, podemos perceber que há muitas variantes de denominações religiosas evangélicas, que diferem mais nos pequenos detalhes como por exemplo, músicas mais agitadas, do que na questão doutrinal. Sendo assim, o fiel acaba experimentando o pluralismo religioso, aumentando a troca de experiência interdenominacional e assim, melhorando a qualidade e a diversificação congregacional.

5- A dimensão da auto realização: mudança religiosa por busca de algo mais.

        Em algum momento da vida, o ser humano é mais suscetível a momentos de reflexão, onde a experiência vivida faz-se com que reflita sobre a situação, saindo da zona de conforto na qual está acostumado, em busca de uma mudança positiva e construtiva para sua vida. Com isso, a pessoa começa a repensar sobre as questões da vida, dos princípios que o norteia, fazendo com que procure respostas e por fim, a sua afinidade numa denominação religiosa mais próxima da sua “nova concepção” ideológica melhorada. Experimentando novos conceitos, a realização pessoal, a sensação de paz interior, o melhoramento na qualidade de vida, entre outros, são os objetivos que as movem as pessoas em busca de uma denominação mais adequado na sua evolução e na adaptabilidade de uma nova realidade melhor.

6- Dimensão pragmática: mudança religiosa por conveniência e comodidade.

        Devido as mais diversas características como a comodidade da igreja estar perto de casa, o indivíduo acaba migrando para a denominação religiosa nova devido a praticidade. Como muitos imigrantes estão numa cidade nova por causa de trabalho, a denominação da proximidade adotada por ele acaba sendo de caráter provisório e o engajamento do fiel nesta situação acaba diminuindo, pois a questão temporária acaba afastando essa pessoa, que está ali para acumular dinheiro por uma temporada e depois, retornar logo a sua terra e costumes de origem. Muitas vezes por este fator, após a estadia laboral, a pessoal pode se afastar da fé devido a esta experiência vivida fora de casa, mas muitas vezes também a pessoa mudar para abraçar a causa eclesiástica de vez pela ausência sentida.

       Com a sociedade cada vez mais “líquida”, mais opções de igrejas para as escolhas, a busca pela auto realização pessoal, os deslocamentos geográficos, entre outros fatores, têm contribuído para que a mobilidade religiosa seja mais frequente e seja considerado normal; portanto, o desafio é cada vez maior para as denominações e as lideranças oferecerem ideais e doutrina a altura dos anseios e dos novos paradigmas da sociedade e da pessoas, tornando a identidade religiosa uma realidade maleável e em constante evolução.