Márcio Luís da Gama Cavalheiro

MÚSICA E A GESTALT NUM ESTUDO PSICOPEDAGÓGICO.

Este trabalho de pesquisa bibliográfica e reflexiva traz a contribuição de diversos autores tanto no que se refere à Psicopedagogia, música, Musicoterapia e Gestalt-terapia com o intuito de proporcionar uma interação entre estes saberes. Uma explanação destas áreas como ciência, bem como algumas abordagens e linhas de pensamento, dentre estas a humanista/existencial, trazem a base de visão desta pesquisa. É proposto também com a inter-relação da música com o homem, como esta abarca o ser-humano como um ser total. Visando esse olhar totalitário a Gestalt-terapia, através de vários autores e do próprio fundador da abordagem Fritz Perls, que discorre de forma única esse olhar, traz estudos e experiências possibilitando um maior entendimento e desenvolvimento do objetivo deste trabalho. Em suma, é um estudo que aponta a relação entre homem, música, aprendizado e terapia numa perspectiva de totalidade na abordagem Psicoterápica, buscando entender essa ‘Gestalt’ que é tão própria de cada ser.

Palavras-chave: Psicopedagogia, Música e Gestalt.

ABSTRACT

This work of bibliographical and reflective research brings the contribution of several authors in terms of Psychopedagogy, Music, Music Therapy and Gestalt Therapy in order to provide an interaction between these knowledge. An explanation of these areas as science, as well as some approaches and lines of thought, among them the humanist / existential, provide the basis for this research. It is also proposed with the interrelationship of music with man, as this embraces the human being as a total being. Aiming at this totalitarian view, Gestalt therapy, through several authors and the founder of the Fritz Perls approach, which uniquely addresses this view, brings studies and experiences that enable a greater understanding and development of the objective of this work. In short, it is a study that points out the relationship between man, music, learning and therapy in a perspective of totality in the Psychotherapeutic approach, seeking to understand this 'Gestalt' that is so proper to each being.

Keywords: Psychopedagogy, Music and Gestalt.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO................................................................................................ 06

1 PSICOPEDAGOGIA E APRENDIZAGEM ................................................. 07

2 MÚSICA E MUSICOTERAPIA – PANORAMA HISTÓRICO...................... 10

3 GESTALT-TERAPIA – PRESSUPOSTOS DE UM CAMINHAR ............... 18

4 GESTALT-TERAPIA .................................................................................. 21

5 A PSICOPEDAGOGIA E A MÚSICA NUM OLHAR GESTALTICO ............ 24

CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................... 29

REFERÊNCIAS ............................................................................................. 30

INTRODUÇÃO

O ser-humano é um assunto que desperta interesse nas mais diversas áreas da ciência desde os tempos mais remotos. A música acompanha o ser-humano ao longo dos tempos e tem neste o poder de tocar de forma única em todos os sentidos, como se o envolvesse totalmente.

Considerando esta relação homem/música, espera-se através do presente trabalho, estudar e refletir como a música atinge o ser no processo psicopedagógico como um todo.

Nesta abordagem Gestáltica, que olha o homem como um ser total, muitas considerações e questionamentos podem ser feitos a esse respeito: Como caminha a Psicopedagogia? O que é a Gestalt-terapia ao afirmar sua visão de ser-humano como um todo? Como a Psicopedagogia, a Musicoterapia e a Gestalt-terapia se relacionam para o desenvolvimento do ser-humano como um ser total?

De forma especial, quando se trata de ciência e da experiência musical do homem como modo de proporcionar saúde e auto realização em todos os aspectos da sua vida, as respostas para tais indagações não se esgotam em si, pois são na verdade possibilidades de reflexão e construção de caminhos que se abrem para aqueles que profissionalmente se propõem a ajudar o ser humano.

Nesta pesquisa encontra-se um panorama geral da música e da Musicoterapia num caminhar histórico, são abordadas as bases da Gestalt-terapia com a psicologia da Gestalt e os principais conceitos que estabelecem como uma psicoterapia humanista/existencial, traz-se também uma explanação da psicopedagogia como área que se ocupa da aprendizagem humana e por fim a relação entre essas linhas terapêuticas numa vasta exploração reflexiva, uma vez que todas envolvem conceitos e entendimento da experiência psicoterapêutica.

1 PSICOPEDAGOGIA E APRENDIZAGEM

A Psicopedagogia é uma área que permite compreender entre a construção do conhecimento por parte do sujeito, sua história, desejo e singularidade. Segundo Bossa (2000, p. 21) “A Psicopedagogia é uma área do conhecimento que ocupa-se da aprendizagem humana e suas formas de trata-la e preveni-la” e investiga a origem da dificuldade de aprendizagem.

O princípio norteador da Psicopedagogia é a integração entre a objetividade e a subjetividade no processo ensino-aprendizagem. Seu objetivo é conduzir o sujeito a uma aprendizagem saudável.

Visando um melhor entendimento sobre as dificuldades de aprendizagem é necessário que haja uma compreensão do que seja a aprendizagem, que segundo Fonseca (2007), compreende um processo funcional dinâmico que integra quatro componentes cognitivos essenciais:

• Input (auditivo, visual, tátil-cinestésico, etc.)

• Cognição (atenção, memória, integração, processamento simultâneo e sequencial, compreensão, auto regulação, etc.)

• Output (falar, discutir, desenhar, observar, ler, escrever, contar, resolver problemas, etc.)

• Retroalimentação (repetir, organizar, controlar, regular, realizar, etc.)

Dentro deste procedimento o indivíduo irá interagir com o conhecimento e confrontar-se com o objetivo do mesmo, para a partir de então, aprender suas relações internas e externas e desta forma o psicopedagogo poderá ajudá-lo.

Segundo Bossa (2000, p. 12) “Os psicopedagogos, são portanto, profissionais preparados para a prevenção, o diagnóstico e o tratamento dos problemas de aprendizagem escolar”. Nesse sentido, o Psicopedagogo adquire conhecimentos de diversas áreas a fim de intervir no processo de aprendizagem, seja para sanar as dificuldades ou para potencializar a aprendizagem, com o intuito de proporcionar ao ser a apropriação do conhecimento. O psicopedagogo é o profissional que irá delinear as melhores possibilidades para o aprendizado, pois é através do seu diagnóstico que busca informações num processo de investigação, que ele identificará os fatores que dificultam a aprendizagem.

É fundamental levar em consideração que o indivíduo traz sempre consigo a sua história e com ela suas dificuldades, inclusive de aprendizagem. Por esta razão a Psicopedagogia além de pertencer a área clínica, também pode atuar em instituições; como Psicopedagogia Institucional, onde irá identificar, analisar e planejar, intervindo através de diagnóstico e de um trabalho interdisciplinar com outros profissionais. Antes de quaisquer intervenção psicopedagógica, é necessário que se desenvolva um estudo interdisciplinar para diagnosticar cada caso, envolvendo profissionais da saúde e educação. Existem casos que necessitam da intervenção de psicólogos, fonoaudiólogos, psicopedagogos, musicoterapeutas, neurologistas ou mesmo os profissionais dentro da escola, por meio de programas individualizados de ensino e práticas pedagógicas diferenciadas.

O psicopedagogo compreende o processo da aprendizagem considerando todas as variáveis que intervêm tanto para o fracasso como para o sucesso do aprender. Segundo Ciasca (citado pela REVISTA DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOPEDAGOGIA, 2007, p. 230) “aprendizagem é uma atividade individual que se desenvolve dentro de um sistema único e contínuo, operando sobre todos os dados recebidos e tornando-os revestidos de significados”. Neste sentido a aprendizagem precisa ser carregada de significado e estabelecido conexões entre estímulos ou situações e respostas da qual resulta a percepção para a aprendizagem.

Como os fatores que podem interferir no processo ensino-aprendizagem são diversos, não se pode deixar de investigar o ambiente no qual o indivíduo vive e a metodologia utilizada nas escolas (fatores socioambientais), antes de direcionar a intervenção psicopedagógica, pois o indivíduo pode não ter uma dificuldade de aprendizagem, mas apenas uma dificuldade de adaptação à metodologia, ou ao ambiente escolar, como também a ausência de estímulos dentro de casa ou acompanhamento escolar pelos familiares.

Dentro do processo ensino-aprendizagem é necessário uma integração entre afetividade, cognição e ação, pois nos indivíduos que não apresentam dificuldades, esta integração acontece favorecendo a aprendizagem, já naqueles que por algum motivo apresentam dificuldades, esta integração aparece cheia de obstáculos, em desorganização, provocando tensão diante das situações que envolvem o aprender.

O não conseguir aprender por repetidas vezes faz com que o indivíduo forme de si uma imagem de derrota, desenvolvendo baixa autoestima, levando-o à inibição ou afastamento de novas situações de aprendizagem, podendo gerar um, círculo vicioso do fracasso, pois quanto mais ele se sente inferiorizado, mais estará propenso ao insucesso, e menos poderá conseguir aprovação a partir de seu desempenho.

A linguagem musical vem sendo apontada por um número cada vez maior de especialistas em todo o mundo, como uma das áreas do conhecimento mais importantes a serem estudadas no desenvolvimento da criança, pois a aprendizagem musical contribui para o desenvolvimento cognitivo, psicomotor, emocional e afetivo e, principalmente, para a construção de valores pessoais e sociais de crianças, jovens e adultos, melhorando a agilidade cognitiva, a capacidade de administrar informações em conflitos e escolher a que melhor se aplica a cada situação, bem como aumenta a autoestima através da comunicação e expressão pela música e esta conexão que veremos nos próximos capítulos.

2 MÚSICA E MUSICOTERAPIA – PANORAMA HISTÓRICO.

(...) quando todo o universo consiste num organismo

vibrante, dançante, música e som realmente devem

ter sua oportunidade histórica de mudar a

humanidade...

Even Ruud

Nietszche (1978), considerava a arte, em especial, a música, como sendo uma exaltação e um estimulante do sentimento de vida. E nesta relação do homem com a música, que é basicamente a história do próprio ser humano e sua humanidade, sabe-se que as primeiras manifestações musicais não deixaram vestígios, fato que torna praticamente impossível dizer quando nasceu a música. Contudo, é fato que ela sempre esteve presente na vida do homem, mesmo que em nenhuma hipótese se possa dizer com exatidão em que momento os primitivos começaram a fazer arte com os sons.

Candé (1994), cita que os testemunhos mais antigos das civilizações musicais refinadas remontam há mais de seis mil anos, e existem razões para pensar que as origens da música ainda sejam mais remotas. Pelos vestígios de instrumentos, pelos relatos lendários ou pela tradição filosófica, sabe-se quais eram suas funções e as condições de seu desenvolvimento principalmente na Ásia menor, no Egito, na China e na Índia.

A musicoterapeuta Ana Lea Von Baranow, considera que “ainda hoje, os pajés e curandeiros dos povos indígenas utilizam a música como via de acesso para a comunicação com os deuses e espíritos, buscando a cura de doenças e resposta para seus problemas”. (BARANOW, 1999, p, 02).

Dentro deste caminho histórico da música e de seu uso para benefício do homem até o estabelecimento da Musicoterapia como ciência, Lenning (1977), diz que a música é tão antiga quanto a humanidade e que os povos antigos davam-lhe tamanha importância que lhe atribuíam qualidades específicas no campo da religião, da sociedade e da medicina. Devido a essa importância é que se observa a música e a medicina vinculadas, principalmente a música como agente utilizado para combater enfermidades.

As primeiras comprovações desta prática se deram a partir de 1899, através de uma descoberta arqueológica, em que o antropólogo inglês Flanges Petrie em Kahum, descobriu papiros egípcios datados de milênios antes de Cristo, que registraram que a música tinha influência na fertilidade das mulheres.

Desde os tempos mais antigos a música esteve ligada por um lado na observação empírica e ás experiências sobrenaturais e, talvez, por esta razão, a música esteve ligada à cura e a religião.

No início da idade média houve uma estagnação da medicina e a cura de enfermidades por intermédio de intervenções divinas passou a fazer parte da fé religiosa. Com a queda do Império Romano a medicina praticamente desapareceu da Europa, as enfermidades, principalmente as de caráter mental, eram atribuídas ao demônio. Nas curas pela fé religiosa, empregavam-se todas as forças espirituais, internas e externas com a finalidade de combater o mal, a enfermidade ou o sofrimento. Entre essas formas estava a música, considerada como algo capaz de afastar transitoriamente a sensação de dor e/ou ansiedade e com isso trazer alívio.

Com o decorrer do tempo, o homem passou a considerar a enfermidade como um estado patológico e a sair da concepção do sobrenatural. Aprendeu a extrair remédios de ervas, raízes e folhas, tecidos animais e vegetais, pouco a pouco foi construindo uma medicina empírica. Em todo este processo a música foi sempre presente percorrendo o mesmo caminho do desenvolvimento dos próprios tratamentos médicos.

Na Grécia antiga, junto com os costumes mágicos ou religiosos encontravam-se conotações filosóficas, éticas, racionais e até mesmo científicas. Para os gregos havia razão e lógica em todo o mundo, inclusive no próprio homem. Pela concepção psicossomática que tinham da enfermidade, pelo seu modo de ver e entender os problemas de saúde, é que explicavam porque a música a partir da ideia de ordem, harmonia, equilíbrio e totalidade estrutural desempenhava um papel de tanta importância para eles.

Neste contexto, se Hipócrates foi chamado o pai da medicina, pode-se dizer que Platão e Aristóteles são os precursores da Musicoterapia, pois Platão recomendava a música para a saúde da mente e do corpo e Aristóteles descrevia seus benefícios nas emoções incontroláveis e também para provocar catarse das emoções. Os gregos procuravam restabelecer o equilíbrio com remédios para o corpo e música para a mente.

Os árabes mais ou menos no mesmo período, seguiram uma teoria até certo ponto parecida com a dos gregos, pois atribuíam qualidades terapêuticas a um de seus instrumentos, o alaúde, em que cada uma de suas cordas desempenhava uma função curativa.

Constantinus Africanus (1010(20)-1087 DC), monge beneditino e tradutor médico, nascido em Cartagena funda a Escola Médica de Saleno no século XII, que adota as teorias médicas de Hipócrates e de Galeno, todas derivadas da filosofia de Aristóteles. Chamados de Aforismos de Hipócrates e traduzido por Africanus, diziam que no século VIII no mundo islâmico, acreditando que os doentes mentais eram preciosos a Deus, fundaram no século IX um asilo em Bagdá, nove em Damasco e vários outros no Egito, onde os pacientes eram tratados com banhos, música, perfumes e dietas especiais.

São Thomas de Aquino (1225-1274), sob a influência de Aristóteles separa a mente do corpo de acordo com dogmas cristãos. Preconiza que as doenças sérias seriam resultados de sobrecarga emocional, insatisfação ou de outros fatores externos atuando sobre a mente.

Do século XV ao século XVI o poder da igreja diminuiu, os estudos em física e matemática avançam rapidamente. Galileu e Newton desafiam os dogmas católicos e a visão da igreja sobre a medicina é contestada¹.

Conforme Leining (1977), mediante a toda essa mudança ocorrida na Renascença a medicina se desvencilhou da supersticiosidade, houve um reflorescimento da ciência e a doença mental passou a ser vista sob critérios científicos. A música se impôs como um dos meios mais eficazes nos processos de recreação.

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SAYEG, Norton. História da Neurociência. Disponível em: http://www.alzheimermed.com.br/m3.asp?cod_pagina=1067 Acesso em 11 de mai. 2018.

Costa (1989) diz que dentro de um estudo histórico, o processo que a

música desempenha, sobretudo na Revolução Industrial (século XVIII), é

marcado por profundas mudanças nas relações humanas e sociais e, assim, no estilo de vida e nos hábitos dos povos. Com o início ao culto da produção e da produtividade, os novos valores causaram novos problemas, muito dos quais, de certa forma, estão presentes em nossos dias. É a época dos grandes sanatórios e do olhar sobre os fatores psiquiátricos, que ao serem tratados numa perspectiva diferente do fato médico e, desta forma, a diferença entre medicamentos físicos e os tratamentos psíquicos começam a abrir caminhos para os primeiros tratamentos psiquiátricos.

Na busca de terapias que contemplem o sensorial, a música ocupa um lugar privilegiado e no decorrer dos anos, a música continua acompanhando o desenvolvimento da medicina. Ainda neste século encontram-se investigações relacionadas ao crescente conhecimento médico de fisiologia e neurologia, sobre os efeitos puramente fisiológicos da música. Procura-se descobrir alguma relação entre os ritmos corporais, o pulso e o tempo musical, e observa-se ainda o efeito da música sobre a respiração, a pressão e a digestão.

O início do século XIX caracteriza-se por grandes revoluções quanto à doença mental, e com a generalização do tratamento moral nos hospícios, o interesse pelo uso da música começa a difundir-se, havendo inúmeros textos de eminentes psiquiatras da época em que discutem o modo de utilizá-la terapeuticamente e os resultados obtidos.

No século XX com a explosão do desenvolvimento tecnológico, o homem sofre mudanças substanciais referente à sua relação com a música, pois o que era antes necessário ter o executante musical para se apreciar a música, passou a ter essa através dos meios de comunicação sendo o rádio, a televisão, os aparelhos de som e hoje os aparelhos celulares. A música tornou-se ainda invasiva, tomando conta de salas de espera, supermercados, bares e restaurantes, em muitos casos se sobrepondo ao volume da voz e impedindo o diálogo estre as pessoas. Dentro de todo esse mercado, a música tornou-se um negócio altamente rentoso. No entanto, por outro lado, esses mesmos progressos tecnológicos trouxeram recursos que permitiram o desenvolvimento mais apurado de pesquisa e estudos sobre a música e sua influência sobre o ser humano.

Com a concepção da ciência na necessidade de comprovações científicas, mesmo com todos os fatos existentes, foi somente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), devido ao grande número de soldados feridos e traumas é que houve um início efetivo da utilização científica da música, a qual Baranow (1999) pontua como a origem da Musicoterapia enquanto prática terapêutica de fundamento científico.

Em 1950 cria-se a Nacional Association for Music Therapy com as seguintes finalidades: colaborar no desenvolvimento progressivo do uso da música na medicina; na preparação de profissionais e no estabelecimento de um trabalho aliado à profissão médica.

No Brasil os cursos a serem realizados com este fim foram fundados em 1971, no PR e RJ e em 1980 a UFRJ deu início à prática clínica da Musicoterapia.

Como se vê historicamente, embora o conceito de uma força terapêutica vinculada a música seja tão antiga quanto nossa civilização, a prática e o uso da música nunca estiveram antes tão difundidos como tem sido nas últimas décadas e o instrumento de trabalho independentemente da definição é o mesmo, a ‘Música’.

Quando se coloca música, é no sentido mais popular da palavra, podendo-se dizer num sentido mais amplo o ‘Som’, isto é, geralmente quando se trata de música limita-se o processo terapêutico a ação de fenômenos acústicos e obras de compositores, mas segundo Baranow (1999), usa-se não só a música, mas os sons, ruídos e os movimentos. “Os sons ou música podem ser produzidos pelo próprio corpo ou pela voz, por objetos que fazem parte do ambiente, por instrumentos musicais ou por gravações”. (BARANOW, 1999, p, 29).

O som é um objeto diferenciado entre os objetos concretos que povoam o nosso imaginário porque, por mais nítido que possa ser, é invisível e impalpável. O senso comum identifica a materialidade dos corpos físicos pela visão e pelo tato. Estamos acostumados a basear a realidade nestes sentidos. A música sendo uma ordem que se constrói de sons, em perpétua aparição e desaparição, escapa à esfera tangível e se presta à identificação com uma outra ordem do real: isso faz com que se tenha atribuído a ela, nas mais diferentes culturas, as próprias propriedades do espírito. O som é um objeto subjetivo, que está dentro e fora, não pode ser tocado diretamente, mas nos toca com uma enorme precisão. [...] A música é capaz de distender e contrair, de expandir e suspender, e condensar e deslocar aqueles acentos que acompanham todas as percepções. Existe nela uma gesticulação fantasmática, que está como que modelando objetos interiores. Isso dá a ela um grande poder de atuação sobre o corpo e a mente, sobre a consciência e o inconsciente numa espécie de eficácia simbólica. (WISNIK, 1989, p.28-30).

A música ou o som entendido como instrumento de trabalho no processo terapêutico é segundo RUUD (1999), uma maneira de se demonstrar de que modo a abordagem atual em terapia não se baseia em uma noção idealística acerca do poder ‘curativo’ da música, fato este que ajuda a esclarecer a diferença entre educação musical e modalidades terapêuticas que que utilizam a música como recurso ou ferramenta de trabalho.

Desta forma tendo a música um sentido mais abrangente, tal qual a música da estética contemporânea ainda que o objetivo primário da terapia é a promoção de saúde e não a simples produção estético-musical, reprodução ou escuta sonora em si, pode-se dizer que as experiências musicais são parte vital do processo terapêutico e podem funcionar como catalizadores no desenvolvimento do indivíduo como um todo.

A utilização da música nos processos terapêuticos baseada no Modelo Psicanalítico RUUD (1999), coloca que embora os psicanalistas raramente tenham abordado o campo da música, ao longo do tempo, no entanto, muitas investigações vêm se acumulando, mesmo não formando um conjunto teórico-prático contínuo. Essa relutância pode-se encontrar no que o próprio Freud em 1914 escreve:

Apesar disso, obras de arte realmente exercem um poderoso efeito em mim, especialmente da literatura e escultura e, com mens frequência, da pintura. Esse fato tem ocasionado, quando contemplo tais obras, que eu passe muito tempo diante delas tentando compreendê-las ao meu modo, isto é, explicando a mim mesmo a que se deve o seu efeito. Sempre que é possível faze-lo, como, por exemplo, com música, sinto-me quase incapaz de ter qualquer tipo de prazer. Algum estado mental racionalista ou talvez analítico me rebela contra eu ser mobilizado por algo que eu desconheça porque estou sendo assim afetado e o que é que me afeta. (FREUD apud RUUD, 1999, p. 34).

A teoria ou Modelo Psicanalítico diz que a Musicoterapia funciona como auxílio para o paciente obter um ajuste mais adequado de sua personalidade, fortalecimento do ego no sentido de adequação e segurança. Também auxilia na percepção interna, na resolução de conflitos, bem como aumenta a auto aceitação e a utilização de técnicas mais eficientes para enfrentar problemas.

Supõe-se que a música, talvez mais do que em outros campos de criação artística, possibilite a pessoa a projetar os seus desejos mais profundos de maneira simbólica e torna-los, então aceitáveis ao ego.

Como segmento dessa pesquisa reflexiva, apresenta-se o Modelo Humanista/Existencial, que apareceu como uma nova tendência na psicologia soa últimos séculos conforme Ruud (1990), e, no qual também incide a base da Gestalt-terapia que será esplanada na sequência. Esse modelo tem sido uma linha, em que Psicólogos e Terapeutas têm trabalhado devido à sua abertura teórico-científica e, seu respeito pelo valor da pessoa, respeito às diferentes abordagens, abertura quanto a métodos aceitáveis e interesse na pesquisa de novos aspectos do comportamento humano.

A psicologia de base Humanista/Existencial desenvolveu-se de várias maneiras e apresentou-se como uma reação contrária às tendências tecnológicas dentro do campo da psicologia. Pode-se talvez criticar a abordagem Humanista por causa da ausência de estudos experimentais e controlados, mas é importante lembrar, no entanto, que esses terapeutas nunca declararam sua condição de cientificidade num sentido positivista, pelo contrário, puseram-se a descobrir novos métodos de pesquisa a complexidade do comportamento humano, métodos que alegaram ser mais adaptáveis ao estudo do ser humano.

Capra (1982), traz a visão de que “a essência da abordagem humanista consiste em considerar i indivíduo uma pessoa capaz de crescer e se auto realizar, e em reconhecer potenciais inerentes ao ser humano”. (CAPRA, 1982, p. 357).

Segundo Perls, Hefferline e Goodman apud Ruud (ibidem, p.65), a maneira pela qual os psicólogos buscaram estabelecer a ciência no seu campo no fim do século XIX, foi utilizando os mesmos métodos prestigiados pela mais antiga e mais adiantada ciência, a física. Em correspondência ao átomo, como a unidade elementar da matéria na época, esforçaram-se em identificar o ‘átomo de comportamento’.

Observa-se que essa afirmação foi feita no ano de 1951, e a perspectiva que se traz nessa pesquisa é a visão totalitária e não mais das partes isoladamente como já estudado.

Dentro do todo o contexto visto até agora, observamos a trajetória da música como canal de comunicação com o homem, sua utilização nos processos terapêuticos e a eficiência dos resultados que as pesquisas tem mostrado na ciência contemporânea.

3 GESTALT-TERAPIA – PRESSUPOSTOS DE UM CAMINHAR

Segundo Ribeiro (1985), toda e qualquer forma de psicoterapia oculta e revela ao mesmo tempo, uma teoria do homem. Procurando através do ser humano, do seu pensar, do seu agir, induzir um modo de comportamento, criar um sistema, uma estrutura que indique a linha mestra do modelo de vida de cada um. Com devidas ressalvas, aquilo que é de um indivíduo pode ser muitas vezes aplicado a outros e neste sentido pode-se dizer que o indivíduo também é universal.

Observa-se que a ciência jamais teve a pretensão de analisar e compreender os homens para só então falar deles e sobre eles. Por meio da análise paciente, constante e objetiva de momentos do homem, ela pode induzir leis que ajudam na compreensão dos demais seres. Neste sentido, em antes da ciência formal existir, pode-se dizer que os homens já executavam tarefas com segurança que seus próprios pensamentos e sentidos lhe ditavam. A partir deste momento, abre-se uma grande discussão no campo da psicologia, como ciência que estuda o comportamento dos seres, ou seja, a relação entre natureza, vida e mente. Todos os ramos do saber humano querem falar sobre uma mesma realidade. O ser humano passou a ser então, propriedade da física, da química, da filosofia e da psicologia. O homem cria as ciências que vão falar e agir sobre ele.

Sendo o homem um ser de relação ’com’, imerso no universo onde tudo diz respeito a ele e com tudo ele se encontra em relação consciente e inconsciente, e uma vez que se caminhasse em busca de um discurso na compreensão desta totalidade.

Surge então uma tentativa de resposta, a posição gestáltica, que propõe uma integração de qualidade, ordem e significado correspondendo à globalidade que define e caracteriza a relação homem-universo.

Frederick S. Perls, o criador da Gestalt-terapia, ocupa um lugar um tanto singular no contexto da psicologia. Ao contrário de Freud, Jung, Adler, James e outros, suas contribuições para a psicologia ocorrem principalmente na área da prática da psicoterapia, mais do que na área da teoria. No entanto nos últimos anos, a popularidade da Gestalt-terapia e sua utilização numa grande variedade de outros contextos além dos especificamente terapêuticos, trouxeram uma corrente e tendência importante na psicologia. A própria falta de uma ênfase estritamente teórica na maioria dos trabalhos de Perls, reflete a direção pela qual ele tentava dirigir a psicologia, estando convencido de que uma visão das pessoas e da sua psicoterapia genuinamente holística e produtiva exigiria uma substancial desintelectualização, visto que o intelecto ocidental tinha se tornado, em suas palavras “... um substituto pobre e pálido da imediaticidade vivida do sentir e vivenciar”. (PERLS apud MAYER, 1986, p. 126).

A teoria da Gestalt segundo Mayer (1986), foi inicialmente formulada no final do século XIX na Alemanha, e desenvolveu-se como um protesto contra a tentativa de compreender a experiência através de uma análise atomista, onde os elementos são reduzidos aos seus componentes mais simples, analisados separadamente e a experiência é entendida como uma mera soma desses componentes.

O que se entende pela palavra ‘Gestalt’? o substantivo alemão apresenta dois significados: (1) a forma; (2) uma entidade concreta que possui entre seus vários atributos a forma. É o segundo significado que os gestaltistas utilizam, e por esta razão é que a tradução da palavra não se encontra em outras línguas, sendo a melhor maneira de se escrever em diferentes idiomas é simplesmente mantendo-a. as Gestalten, percebidas em primeiro lugar, podem ser decompostas em partes, mas as partes são sempre partes da Gestalt formadora.

É importante entender que a Gestalt é diferente da soma dos elementos ou é errôneo dizer que o todo é mais do que a soma dos elementos, pois a Gestalt é anterior à soma dos elementos, e a determinação é de cima ou descendente e não de baixo ou ascendente. A maneira epistemológica de observar inicialmente o todo é conhecida, hoje em dia, como holismo ou descendente, já que para a maioria dos psicólogos e grande parte dos cientistas acham que é melhor começar pelos elementos ou ascendente.

Aristóteles citado por Engelmann, já dizia no longínquo século IV a.C. que “O todo é, com efeito, necessariamente anterior à parte, (...) O importante sempre é a forma total, e não os elementos que nunca surgem separados do ser ao qual pertencem”. ²

Esta abordagem aristotélica holística foi negada no século XVII, quando Galileu e Descartes deram os primeiros passos na explicação da natureza, e descobriram que a função das partes era extremamente importante, entretanto, conhecer a função dessas partes seria, de acordo com eles, suficiente.

A escola gestáltica causou grande impacto em todo o campo da psicologia, de acordo com Mayer (1986), na metade do século XX a abordagem gestáltica havia se tornado tão intrínseca à corrente central da psicologia, que a noção de um movimento gestáltico por si só deixou de existir.

Embora a teoria da Gestalt, por volta de 1940 já tivesse sido aplicada a diversas áreas da psicologia, foi em grande parte ignorada no exame da dinâmica da estrutura da personalidade e do crescimento pessoal, e não havia nenhuma formulação específica para psicoterapia. É a partir deste ponto que entram as contribuições de Fritz Perls, responsável pela ampliação da teoria da Gestalt a fim de incluir a psicoterapia e uma teoria de mudança psicológica, dando origem a Gestalt-terapia, a qual se fará uma abordagem mais detalhada, sendo a linha mestra de reflexão com a Psicopedagogia e a Musicoterapia.

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²Tradução francesa por J. Tricot de Aristóteles (1962) da Política, 1,2,1253. Retraduzida por ENGELMANN. (Referência completa).

4 GESTALT-TERAPIA

Sendo a Gestalt-terapia uma terapia existencial, baseada na filosofia existencial e utilizando-se de princípios em geral considerados existencialistas fenomenológicos, far-se-á um delineado dentro destas abordagens colocando as semelhanças e principais conceitos.

Na história tanto o Existencialismo quanto a Psicologia da Gestalt surgiram contrárias à abordagem científico-natural-mecanicista inteiramente racional, e a Gestalt-terapia com Fritz Perls seguiu o mesmo caminho.

Perls associou-se à maioria dos existencialistas insistindo que, o mundo vivencial de um indivíduo só pode ser compreendido por meio da descrição direta que o próprio indivíduo faz de sua situação única e que o encontro do terapeuta com o paciente constitui um encontro existencial entre duas pessoal e não uma variante do clássico médico-paciente.

Ao invés de considerar que cada indivíduo encontra um mundo que ele experiência como sendo completamente separado de si mesmo, a Gestalt-terapia e o existencialismo acreditam que os indivíduos criam e constituem seus próprios mundos, isto é, o mundo existe para dado indivíduo como sua própria descoberta de mundo.

O método fenomenológico de compreender através da descrição é básico no pensamento de Perls, pois todas as ações implicam escolha, todos os critérios de escolha são eles próprios selecionados e explanações causais são suficientes para justificar as escolhas ou ações de alguém, além disso, a confiança fenomenológica na intuição para o conhecimento das essências assemelha-se à confiança de Perls no que ele chama de inteligência ou sabedoria do organismo.

O conceito de intencionalidade é também básico tanto para o existencialismo e a fenomenologia quanto para o trabalho de Perls, pois a mente ou consciência é entendida como intenção e não pode ser compreendida à parte do que é pensado ou pretendido.

Observa-se também esse conceito a partir de Ribeiro (1985), onde diz que é através da intencionalidade que algo se faz, se constitui espontaneamente na consciência. A intencionalidade cria relação entre o sujeito e o objeto, entre o pensamento e o ser, entre o homem e o mundo. A consciência é livre, é ativa, cabe a ela dar sentido às coisas, ela não é um mero depósito de imagens e representações de objetos que agem sobre os sentidos, pois não são os objetos do mundo exterior que criam as imagens na consciência, mas é ela que dá sentido ao que existe na realidade objetiva.

Em suma, o próprio modo de Perls propor sua abordagem, inclui características fenomenológicas e existenciais, pois seus escritos não são argumentações descrevendo um ponto de vista particular, uma vez que na estrutura fenomenológica, a argumentação perde o sentido, a sua tentativa é no sentido de constituir uma teoria de desenvolvimento psicológico que é inseparável do envolvimento dele com seu próprio desenvolvimento.

Na Gestalt-terapia, a partir dos estudos de Mayer (1986), a noção de organismo como um todo é central, tanto em relação ao funcionamento intra-orgânico quanto à participação do organismo em seu meio para criar um campo único de atividades. No contesto intra-orgânico, Perls insistia em que os seres humanos são organismos unificados e que não há nenhuma diferença entre o tipo de atividade mental e física, pois ele definia atividade mental simplesmente como atividade da pessoa toda que se desenvolve num nível mais baixo de energia que a atividade física. Esta concepção sugere que qualquer aspecto do comportamento de um indivíduo pode ser considerado como uma manifestação do todo – ‘o ser’ da pessoa. Assim na terapia, o que o paciente faz, como se movimenta ou o que fala, fornece tanta informação a seu respeito quanto o que ele pensa.

O processo de crescimento, nos termos de Perls, é um processo de expansão das áreas de autoconsciência e o fator mais importante que inibe o crescimento psicológico é a fuga da conscientização.

A Gestalt-terapia segundo Mayer (1986), acredita plenamente na sabedoria do organismo. Considera o indivíduo maduro e saudável o indivíduo

auto apoiado³ e autorregulado. Existe um princípio de hierarquia de

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³Apoiado é a palavra mais próxima de supporting, apesar de não ter a mesma conotação de sustentação que tem o termo em inglês.

necessidades que está sempre operando na pessoa, isto é, a necessidade mais urgente, a situação inacabada mais importante, sempre emerge se a pessoa estiver simplesmente consciente da experiência de si mesma a todo o momento.

A tomada de consciência engloba três camadas ou zonas. Conforme Perls (1977), estas zonas são: a tomada de consciência de si mesmo, a tomada de consciência do mundo e a tomada de consciência que está na zona intermediária da fantasia, impedindo a pessoa de entrar em contato consigo mesma ou com o mundo. Esta é a grande descoberta de Freud, que existe alguma coisa entre o indivíduo e o mundo. No entanto, Freud se concentrou completamente na compreensão desta zona intermediária, onde em contraste, Perls na maior parte de sua abordagem inclui uma tentativa de ampliar a conscientização e obter assim, contato consigo e com o mundo.

Neste olhar totalitário do indivíduo é que se faz a interligação da música e da Musicoterapia em conjunto com a Psicopedagogia para alcançar a aprendizagem e o desenvolvimento do ser como um todo.

5 A PSICOPEDAGOGIA E A MÚSICA NUM OLHAR GESTALTICO

Estudou-se até o presente momento, várias correntes filosóficas e psicoterápicas que postulam posicionamentos sobre o desenvolvimento e a aprendizagem do homem. Conciliando os conhecimentos sobre estas terapias, se fará uma reflexão buscando acrescentar ao exercício da Psicopedagogia, como a totalidade da música pode trabalhar na totalidade do ser-humano, pois segundo Magalhães (2002) acredita-se que assim como a música abarca o ser-humano como um todo, as aquisições e desenvolvimento do indivíduo na música indicam, analogicamente, aquisições e desenvolvimento na vida do indivíduo.

Bruscia afirma que:

Quando um cliente libera emoções ao fazer ou ouvir música, essas emoções não são definidas apenas em termos musicais, e a liberação também não ocorre somente em termos musicais. Portanto, cada mudança que o cliente faz em uma experiência musical, ou ela pode ser generalizada para áreas não musicais do funcionamento humano, ou a mudança musical já significa que uma mudança não-musical ocorreu.

(BRUSCIA, 2000, P. 163)

Dentro desta visão de totalidade, a Gestalt-terapia indica que a busca do significado e valor encontra resposta no momento em que o todo é ouvido e sentido como um todo e não como uma sequência fragmentada, pois mesmo que os elementos funcionem ou se articulem separadamente, criam relações de causa e efeito na produção de um significado. Numa sinfonia “se descrevemos nota por nota, estas não terão um significado, um valor na realidade total; se descrevemos uma parte, esta nos dirá algo de cada nota e do todo; se descrevemos o todo, este nos dará o significado de cada nota e de cada parte”. (RIBEIRO, 1985, P. 23).

Desta forma a importância deste raciocínio em se tratando do olhar do Psicopedagogo, bem como de todos os profissionais envolvidos para a realização da leitura do indivíduo, onde este passa a ser melhor compreendido quando observadas as suas partes dentro de um todo, fazendo assim uma relação dinâmica de parte para parte.

Quando a ação psicopedagógica é orientada para o todo da criança, adolescente ou adulto, cada uma das suas partes está sendo mexida, considerada. Visto que quando é orientada para uma parte do indivíduo, por exemplo, para a respiração, toda a pessoa está sendo atingida, pois a relação não é só de causa e efeito, mas uma relação existencial estre as partes e o todo, entre cada nota da sinfonia.

Isto se observa claramente no processo musicoterápico, como a música atinge o indivíduo em sua totalidade, ou seja: como ser afetivo, biológico, intelectual e transcendente. Jourdain justifica a transcendência da música quando diz:

Durante alguns momentos, ela nos torna maiores do que realmente somos e ao mundo, mais ordenado do que realmente é. Reagimos não apenas à beleza das relações profundas constantes, que nos são reveladas, mas também ao fato de as percebermos. Como nossos cérebros são impelidos para uma marcha acelerada, sentimos nossa existência se expandir e percebemos que podemos ser mais do que comumente somos, e que o mundo é mais do que parece ser. (JOURDAIN, 1998, p.416)

O sentimento de expansão e a percepção que o indivíduo experiencia através da música que ele pode ser mais, bem como o mundo ao seu redor, segundo Ribeiro (1985), o é uma tomada de consciência do que já estava nele, o que já possuía, ou seja toma posse de si próprio e do mundo ao qual pertence. Sendo a música o agente primário no processo psicopedagogo ou terapêutico, segundo Bruscia (2000), ela é uma instituição humana na qual os homens criam significações e beleza através dos sons, esta significação e beleza derivam-se das relações intrínseca criadas entre os próprios sons e das relações extrínsecas criadas entre os sons e outras formas de experiencia humana.

Ao proporcionar ao indivíduo um contato profundo com a música, o profissional Musicoterapeuta, psicopedagogo ou professor possibilita uma progressiva relação de intimidade entre homem/música, afrouxando as resistências e facilitando uma entrega do ‘ser’ à experiencia musical. Desta maneira, “a significação e a beleza podem ser encontradas na música (isto, é, no objeto ou produto), no ato de criar ou experimentar a música (isto é, no processo), no músico (isto é, na pessoa) e no universo”. (BRUSCIA, 2000, P. 111).

A inter-relação da Psicopedagogia envolvendo profissionais, música, cliente e o universo como Bruscia colocou acima, abre muitas possibilidades, no entanto, o processo psicopedagógico compreende organização e controle do que é desejado ou pretendido, no entanto, quando duas ou mais pessoas interagem juntas como cliente e terapeuta, muita coisa pode e deve acontecer especialmente em um contexto musical, onde várias delas não podem ser planejadas de antemão. Desta maneira coisas inesperadas e surpreendentes acontecem quando novas formas de aprendizagem são propostas e para isso o psicopedagogo e demais profissionais podem colocar como: “o verdadeiro propósito da terapia”. (BRUSCIA, 2000, P. 27).

De acordo com Campbell (2000, p. 134) “A música pode tornar-se uma parte importante de qualquer ambiente institucional ou educacional”. Portanto, seu uso na Psicopedagogia será com o objetivo de desenvolver o indivíduo no processo de aprendizagem e promover no mesmo uma motivação para o saber.

A música poderá ser usada para proporcionar uma atmosfera receptiva à chegada, pois a mesma oferece um efeito calmante, alivia e revigora a energia, além de quando usada suavemente como fundo, tem a capacidade de concentrar a atenção e melhorar os níveis de energia física. Dentre outros benefícios da música na Psicopedagogia estão também o desenvolvimento das habilidades, como por exemplo, leitura, escrita, matemática, além de outras áreas do conhecimento. O Psicopedagogo poderá criar um espaço de aprendizagem através de jogos de memória musical, brincadeiras musicais como cantigas de roda, parlendas e paródias, letras de canções infantis na alfabetização, com adaptação rítmica para trabalhar as sílabas, músicas folclóricas, as quais poderão ser preparadas para estimular a leitura e a escrita de maneira prazerosa à alfabetização. Também para aprimorar as habilidades de audição e concentração todas as brincadeiras musicais são recomendadas.

No contexto Psicopedagógico a música ainda contribui para o desenvolvimento dos seguintes aspectos: esquema corporal, percepção auditiva, ritmo, percepção visual, orientação espacial, orientação temporal, lateralidade, coordenação motora, socialização, integração, interação, expressão (esquema) corporal, memória, observação, atenção e concentração, fixação dos conteúdos trabalhados, emoção, afetividade, inteligência musical, espacial, pessoal, linguística; inteligência intrapessoal, linguística e cinestésica corporal. Levando em consideração que o indivíduo no contexto escolar pode ler a letra, cantar, interpretar e ao mesmo tempo dramatizar favorecendo até mesmo uma catarse, que trabalha suas emoções mais profundas.

Numa intervenção Psicopedagógica com utilização da música através do estudo de um instrumento musical, deve-se ter grande cuidado com o que se espera do aluno em termos musicais. Muitas vezes ele sofre com exigências descabidas de perfeição na execução de seus instrumentos, tirando o próprio prazer que a música deve proporcionar ao intérprete, onde segundo Gainza (1988, p. 95):

Educar-se na música é crescer plenamente e com alegria. Desenvolver sem dar alegria não é suficiente. Dar alegria sem desenvolver tampouco é educar. Embora o aspecto do desenvolvimento propriamente dito encontre-se associado principalmente ao conhecimento das técnicas pedagógicas, o segundo aspecto, chama-se prazer, alegria, plenitude, participação ou motivação, relaciona-se mais de perto com aquilo a que chamamos intuição ou espírito pedagógico.

O’Donnell (1999) conta que Albert Einstein, mesmo sendo considerado um dos homens mais inteligentes da humanidade, poucos sabem que quando criança teve grandes dificuldades de aprendizagem nos primeiros anos de escola, chegando ao ponto de seus professores dizerem a seus pais para tirá-lo da escola, pois era burro demais para aprender e que seria um desperdício de recursos, investimento de tempo e energia em sua educação. Porém sua mãe não achava que seu filho fosse o que haviam dito. Ao invés de seguir o conselho dos professores seus pais compraram-lhe um violino.

A música foi a chave que ajudou Albert Einstein a tornar-se um dos homens mais inteligentes que já viveu. O próprio Einstein dizia que a razão pela qual ele se tornara tão inteligente era porque tocava violino.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O ser humano desde o ventre da mãe já encontra-se cercado de sons. O compasso dos batimentos cardíacos, o ritmo da respiração e muitos outros que sente e percebe tanto internamente quanto externamente. Esse envolvimento com os sons proporciona a todos a condição de aprender um instrumento musical e ter a música como um linguagem.

No decorrer deste trabalho estudaram-se temas relevantes tanto para a vida humana quanto para a Psicopedagogia como profissão e ciência. Ao trazer o panorama histórico da música e Musicoterapia, não só se colocou em pauta a música, como também sua relação com a humanidade ao longo de milhares de anos. Dentro desta compilação de relatos e experiências, observou-se a música ainda como poderoso agente, de natureza transcendente, curadora e capaz de atingir o ser humano como um todo. Nesta perspectiva de abarcar o ser humano em sua totalidade, fez-se a relação com a Gestalt-terapia a qual traz como princípio de base em seu olhar a importância de considerar cada indivíduo como um todo e não como a soma das partes, bem como a visão única que cada um tem de si e do mundo ao seu redor, como uma Gestalt.

A Psicopedagogia para todo aquele que se dedica à Educação, na medida em que possibilita uma análise das teoria relacionadas ao aprender e ensinar, cria um campo amplamente explorável, pois quando aliada à música e outras terapias consegue um universo vastíssimo que merece muitos outros aprofundamentos.

Quando se estuda arte e vida, de fato, se a arte é uma expressão da vida, não há dúvidas de que a música numa perspectiva integradora, processada numa visão Psicopedagógica também integradora, é uma construção em que vida e arte formam um único corpo para a revelação de um ser total e assim podemos concluir com a celebre frase do grande pacifista Maharma Ghandhi (1869-1948) ao dizer que “A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”.4

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4Disponível em: Acesso em 14 de set. 2018.

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